Do voluntariado ao impacto social, minha história de doação

Introdução

Do voluntariado ao impacto social, minha história de doação

Eu não me lembro do dia em que comecei a ajudar.
Porque, para ser sincero, o voluntariado nunca começou de forma clara.

Ajudar sempre esteve ali. No jeito de olhar para as pessoas. No incômodo diante da necessidade alheia. Na sensação de que seguir a própria vida ignorando o entorno nunca foi uma opção confortável.

Durante muito tempo, eu fiz sem planejar. Apenas fazia. Ajudava quando podia, do jeito que dava, porque algo dentro de mim dizia que era assim que precisava ser.

Nunca esteve ligado a uma religião específica. Eu transitei por muitas, ouvi diferentes verdades. Ainda assim, uma frase do espiritismo sempre me acompanhou e fez profundo sentido para mim: não há salvação fora da caridade.
Não como dogma, mas como prática. Como escolha diária.

Só muitos anos depois eu entendi que aquilo, na verdade, era um caminho sendo construído. Um caminho feito de escolhas pequenas, de gestos quase invisíveis, de um incômodo persistente que me empurrava sempre para fora de mim.

Essa história não começou quando criei um projeto, nem quando fundei uma iniciativa, nem quando passei a orientar jovens. Ela começou antes de tudo isso. Começou sem nome, sem método e sem aplausos. Doar, para mim, nunca foi um evento isolado.
Sempre foi um caminho.

As raízes da minha história de doação

Antes de qualquer projeto social, antes de qualquer mentoria, antes de qualquer estrutura organizada de impacto, existiu uma referência silenciosa na minha vida: minha mãe.

Eu cresci vendo minha mãe ajudar.
Não como discurso. Como atitude.

Ela ajudava parentes, vizinhos, pessoas que batiam à porta, causas que ninguém via. Muitas vezes sem contar para ninguém. Muitas vezes recebendo ingratidão em troca. Mais ainda assim ela ajudava porque achava que era o certo. Simples assim.

Aquilo foi ficando em mim.

Talvez por isso o voluntariado nunca tenha sido algo que eu “decidi fazer” em algum momento da vida. Ele sempre esteve presente. De forma contínua. Natural. Quase óbvia.

Ao longo dos anos, participei de ações emergenciais, campanhas solidárias, apoio a causas sociais, ambientais e humanas. Doações materiais, apoio financeiro, tempo dedicado, presença física. Em diferentes momentos e contextos, apenas ajudar fazia parte de quem eu era.

Com o tempo, o voluntariado foi deixando de ser algo pontual e passou a fazer parte da minha vida de forma ativa e recorrente. Eu participava de ações em organizações sociais, mas também criava campanhas solidárias por conta própria. Mobilizava minha rede de contatos, explicava a causa, chamava as pessoas para ajudar — e, muitas vezes, elas ajudavam.

Pessoas confiavam em mim. Acreditavam na forma como eu conduzia as campanhas e, por causa dessa confiança, doavam tempo, dinheiro, recursos e energia. Muitas ações só aconteceram porque existia esse vínculo de credibilidade. Eu não fazia sozinho. Eu conectava pessoas em torno de uma causa.

Em paralelo a isso, comecei a me aproximar das áreas de responsabilidade social das empresas onde trabalhei. Inicialmente, sempre ligado a iniciativas assistenciais: campanhas solidárias, ações emergenciais, arrecadações, apoio a causas específicas. Eram projetos importantes, necessários e que geravam alívio imediato para quem precisava.

Mesmo assim, com o passar do tempo, comecei a sentir um incômodo difícil de explicar. Eu ajudava, participava, mobilizava pessoas — mas a sensação era de estar enxugando gelo. As necessidades voltavam, os problemas se repetiam e eu não conseguia enxergar uma mudança estrutural acontecendo.

Não era desprezo pelo assistencialismo. Muito pelo contrário. Eu via valor, respeito e necessidade nessas ações. Mas, para mim, aquilo já não parecia suficiente. Eu sentia que estava cuidando das consequências, não das causas.

Essa sensação foi um divisor de águas na minha história de doação e impacto social. Não me afastou do voluntariado. Pelo contrário. Me fez buscar uma forma diferente de ajudar.

O primeiro contato com jovens

Foi nesse momento da minha trajetória que tive contato com um projeto de responsabilidade social voltado à mentoria de carreira para jovens aprendizes. Até então, eu já tinha participado de muitas ações assistenciais, campanhas solidárias e iniciativas importantes. Mas aquilo era diferente.

Eu entrei como mentor.
Minha ideia inicial era simples: compartilhar experiências, conversar sobre trabalho, explicar um pouco do mundo profissional que aquelas meninas estavam prestes a enfrentar.

Mas bastaram os primeiros encontros para eu perceber que não se tratava apenas de orientação de carreira.

Quando comecei a ouvir aquelas jovens, algo me atravessou.
O desespero era real. A angústia era visível. Elas falavam do medo de escolher uma profissão errada, da pressão de “decidir o futuro” sem nunca terem trabalhado, sem conhecerem o mercado, sem terem alguém que sentasse com elas para pensar junto.

Elas não tinham experiência.
Não tinham apoio.
Não tinham referência.

E, sem perceber, eu voltei muitos anos no tempo.

Eu me reconheci ali.

Eu também tive dificuldade para escolher minha profissão. Também me senti perdido. Também precisei decidir caminhos importantes sem orientação, sem alguém que explicasse como a vida adulta funcionava, como o trabalho funcionava, quais escolhas eram possíveis.

Enquanto eu ouvia aquelas meninas, não era só empatia.
Era memória.
Era identificação profunda.

Naquele momento, ficou claro para mim que eu não estava apenas ajudando jovens. Eu estava, de alguma forma, cuidando de uma parte da minha própria história.

Isso mudou tudo.

No começo, eu atuava apenas como mentor. Conversava, escutava, orientava individualmente. Mas, à medida que o projeto avançava, comecei a enxergar coisas que poderiam ser diferentes.

Eu via potencial naquele projeto, mas também via limites. Comecei, então, a me aproximar mais da coordenação. Queria ajudar além das conversas individuais. Queria pensar no todo. Queria melhorar a experiência das jovens, tornar o processo mais consistente, mais profundo, mais transformador.

Quanto mais eu me envolvia, mais ficava claro que aquilo não era apenas um voluntariado pontual. Era algo que me atravessava. Eu saía das reuniões pensando nas histórias que tinha ouvido, nas escolhas que aquelas meninas estavam prestes a fazer, nos erros que eu mesmo tinha cometido por falta de orientação.

Ali, sem perceber, eu descobri algo que mudaria completamente a minha história de doação e impacto social: essa era a minha missão de vida.

Ajudar jovens a não se sentirem tão perdidos quanto eu me senti.
Ajudá-los a fazer escolhas com mais consciência, mais clareza e menos sofrimento.

Quando a missão ficou clara

Foi nesse período que aconteceu algo que eu não planejei.

A área onde eu atuava foi transferida para fora do país, e todos os profissionais de tecnologia foram dispensados.

Quando saí da empresa, levei comigo aquele incômodo e aquela convicção. Eu sabia que queria continuar ajudando jovens, mas do meu jeito. Do jeito que eu acreditava que funcionava.

Foi ali, nesse intervalo entre o fim de um trabalho e o começo de algo novo, que eu decidi criar meu próprio projeto social. Um projeto inspirado naquela experiência de mentoria, mas com todas as melhorias, ajustes e mudanças que eu acreditava serem necessárias.

Assim nasceu o Mentoria Anjo.

Comecei a procurar organizações para apresentar a ideia. Vieram muitos “nãos”. Alguns foram educados, outros vieram em forma de silêncio. Houve quem risse. Houve quem desacreditasse. A maioria simplesmente não respondeu.

Eu não tinha nada escrito. Nenhum projeto, nenhum material, nenhuma garantia. Tinha apenas uma ideia no coração e uma convicção tão forte que eu seguia batendo em portas mesmo sem saber exatamente como explicá-la.

Até que veio um “sim”.

Aquela organização acreditou na proposta e me deu espaço para começar. Quando saí daquela reunião, fui para casa e coloquei no papel aquilo que já estava no coração. Tudo o que eu sentia, tudo o que acreditava, foi ganhando forma no papel.

Assim nasceu o Mentoria Anjo — pequeno, imperfeito, mas profundamente alinhado com a minha missão de vida, recém-descoberta.

O voluntariado que devolveu de formas inesperadas

Na primeira turma, decidi buscar bolsas de estudo para as jovens. Fui atrás de escolas, bati em portas, ouvi novos “nãos”. Até que uma escola de idiomas acreditou e ofereceu bolsas.

Durante essa conversa, fui convidado a ministrar palestras. A partir do conteúdo dessas palestras, surgiu um interesse inesperado: transformar aquele material em um curso online.

Foi assim que nasceu o Bombando sua Produtividade.

Até hoje, esse curso gera renda para mim. Não como troca direta pelo voluntariado, mas como consequência. Como se a vida dissesse: continue, que o caminho se ajusta.

Essa experiência reforçou algo que aprendi na prática: voluntariado não é perda, é semente.

A profissionalização do impacto social

Com o tempo, ficou claro que impacto social exige mais do que boa vontade. Exige método, estrutura e responsabilidade.

Passei então a atuar profissionalmente na estruturação, no acompanhamento e na avaliação de impacto de projetos sociais, me formando como gerente de projetos sociais e obtendo a certificação PMD Pro.

Empreendedorismo social: quando o impacto pede escala

À medida que eu me envolvia cada vez mais com a mentoria, comecei a ajudar muitos jovens. Jovens que ganhavam clareza, confiança e direção. Jovens que tomavam decisões melhores porque, pela primeira vez, alguém tinha parado para escutá-los de verdade.

Fazer diferença na vida dessas pessoas sempre foi profundamente gratificante. Cada conversa, cada orientação, cada transformação confirmava que eu estava no caminho certo.

Mas, junto com isso, uma constatação começou a se tornar evidente.

O impacto que eu gerava estava diretamente ligado ao tempo que eu tinha disponível. Eu conseguia ajudar quem chegava até mim, no ritmo que a minha agenda permitia, na região onde eu morava. E isso, embora valioso, começou a parecer pequeno diante da dimensão do problema.

Havia muitos outros jovens.
Em outras cidades.
Em outros estados.
Com as mesmas dúvidas, os mesmos medos, a mesma falta de orientação.

Eu não queria ajudar apenas alguns.
Eu queria alcançar mais.

Foi aí que entendi que o atendimento individual funcionava, transformava, fazia sentido. Mas ele não era suficiente para alcançar todos os jovens que precisavam de apoio.

Se eu quisesse ampliar o impacto, precisava pensar em escala.

Não para substituir a mentoria humana, mas para levá-la mais longe. Não para perder profundidade, mas para multiplicar o alcance. Não para centralizar em mim, mas para criar um caminho acessível a quem nunca teria contato com um mentor presencial.

Foi nesse contexto que a tecnologia surgiu como uma aliada natural.

Assim nasceu o Orientador Anjo, uma startup social criada para democratizar o acesso à orientação profissional e ao autoconhecimento, usando tecnologia para escalar aquilo que sempre foi humano: escuta, reflexão e direcionamento.

O aplicativo não substitui pessoas.
Ele amplia possibilidades.

Ele permite que jovens de qualquer lugar do Brasil tenham acesso a perguntas certas, reflexões importantes e orientações iniciais que muitas vezes fazem toda a diferença. Ele leva orientação aonde o mentor presencial não chega.

O Orientador Anjo é a forma que encontrei de transformar um trabalho que já funcionava em algo maior, mais acessível e mais justo.

Fui transformar e me encontrei no caminho

O voluntariado sempre fez parte de mim, e eu nunca soube explicar exatamente o porquê. Eu simplesmente fazia. Sentia a necessidade de ajudar, de contribuir, de estar presente quando alguém precisava. Não era algo planejado, nem encaixado em agenda. Era quase instintivo.

Durante muito tempo, enxerguei o voluntariado exatamente assim: um tempo que eu doava, uma parte da minha vida dedicada a alguém que precisava de alguma forma. Algo importante, necessário, mas separado do “resto da vida”. Um espaço paralelo, que coexistia com tudo o mais que eu vivia.

Com o passar dos anos, comecei a perceber que aquilo não era apenas um complemento. Não porque tivesse perdido valor — pelo contrário —, mas porque ajudar pessoas começou a ocupar um lugar cada vez mais central em mim. Fazer a diferença deixou de ser algo que eu queria viver só no tempo livre. Aos poucos, fui entendendo que isso precisava atravessar a minha vida inteira.

Foi aí que algo mudou dentro de mim.

Comecei a compreender que o voluntariado, para mim, era mais do que uma ação solidária. Ele era o ponto de partida. Mas, para gerar transformações mais profundas e duradouras, seria preciso ir além. Foi quando o conceito de impacto social passou a fazer sentido.

Entendi que projetos mais estruturados, com método, acompanhamento e responsabilidade, são capazes de gerar resultados mais perenes. Não porque o voluntariado simples não seja valioso — ele é, e sempre será —, mas porque algumas transformações exigem continuidade, visão de longo prazo e estratégia.

Isso não significou abandonar o voluntariado. Eu sigo fazendo voluntariado. Sigo doando dinheiro para diferentes causas. Sigo apoiando iniciativas sociais que acredito e respeito. O voluntariado continua sendo uma forma importante de apoiar causas diversas, de estar presente e de contribuir.

Foi nesse ponto que comecei a entender algo ainda mais profundo.

Isso tudo é sobre deixar um legado. É sobre construir algo que continue existindo, fazendo sentido e transformando vidas mesmo quando você não está mais presente.

Essa percepção mudou a forma como eu olhava para tudo.

Passei a entender que algumas causas a gente apoia ao longo da vida — e isso é importante. Mas existe um outro nível, mais profundo, que tem a ver com missão. Missão de vida é aquilo que não se encaixa apenas no tempo livre. É aquilo que te mobiliza por inteiro. Que te dá energia para acordar, trabalhar, insistir, recomeçar e seguir.

Quando a gente encontra essa missão, algo muda. As decisões ficam mais claras. As escolhas fazem mais sentido. E a vida deixa de ser dividida entre “o que eu faço para viver” e “o que eu faço porque acredito”. Tudo começa a caminhar na mesma direção.

Foi aí que percebi que orientar e direcionar jovens não era algo que eu queria fazer de vez em quando. Era algo que eu queria viver por inteiro. Estar alinhado com isso em todas as oportunidades. Dizer “sim” sempre que a missão se apresentasse. Nunca deixar um jovem sem escuta, sem resposta ou sem caminho — mesmo quando fosse difícil, desconfortável ou exigisse mais de mim.

Trabalhar com jovens passou a fazer sentido não apenas como uma frente de atuação, mas como eixo central daquilo que eu queria construir. Jovens estão justamente no momento em que escolhas, orientações e referências fazem mais diferença. Ajudar nesse ponto é ajudar a mudar histórias inteiras, antes mesmo que elas se tornem dores mais profundas.

Criar projetos, caminhos e soluções para jovens passou a ser a forma mais concreta de materializar esse legado. Não apenas apoiando pontualmente, mas construindo estruturas que permanecem, que se replicam, que continuam orientando mesmo quando eu não estou ali.

Foi assim que impacto social deixou de ser apenas uma prática e passou a ser um compromisso de vida. Um compromisso com algo maior do que ações isoladas. Um compromisso com aquilo que eu escolhi viver — e com o legado que eu quero deixar.

Como encontrar sua própria causa e começar a fazer voluntariado

Muitas pessoas sentem vontade de fazer trabalho voluntário, mas travam na pergunta: por onde eu começo?
A resposta costuma ser mais simples do que parece.

O primeiro passo não é escolher uma causa. É olhar para dentro.

Pergunte-se: que dor do mundo mais me incomoda?
Normalmente, ela tem relação direta com algo que você já viveu ou vive de perto. A missão de vida quase sempre nasce dessa conexão entre experiência pessoal e desejo de evitar que outros passem pelo mesmo.

Depois disso, comece pequeno. Não espere o projeto perfeito, a ONG ideal ou o momento certo. Voluntariado começa com presença, escuta e intenção. Pode ser tempo, pode ser conhecimento, pode ser dinheiro. Toda forma de doação é válida quando vem com propósito.

Use aquilo que você já sabe fazer. Suas habilidades profissionais, sua experiência de vida, sua escuta. Impacto social não exige que você vire outra pessoa — ele pede que você seja quem você é, a serviço de algo maior.

E, talvez o mais importante: respeite o seu ritmo. Fazer a diferença não é competição. É constância. É compromisso. É entender que ajudar também é responsabilidade.

Se você sentir que aquela causa faz sentido, aprofunde. Busque aprender mais, entender melhor o problema, estruturar sua atuação. Com o tempo, você vai perceber se aquilo é apenas uma contribuição pontual ou se é um chamado para algo maior.

No fim, não existe fórmula única.

Um convite, não uma obrigação

Se essa história te tocou, talvez seja porque, em algum nível, você também sente vontade de fazer diferença.

Doe o que você puder:
seu tempo, seu conhecimento, seus recursos.

Descubra a sua causa.
Encontre a sua missão.
Use a sua história para aliviar a dor de alguém.

Porque quando a gente transforma a própria experiência em serviço, o impacto deixa de ser externo e passa a dar sentido à nossa própria vida.

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